Há três semanas eu esperava por uma resposta. Há três semanas eu acordava no
meio da noite com a esperança de palavras suas. Às vezes eu queria me matar por
ter te dito tudo o que eu sentia, e às vezes eu queria te matar por ter me
feito sentir aquilo. E por ser tão perfeito, e por amar os pássaros e o mar. E
por ser tão livre. Eu, que nunca fui livre. Eu, que fingia ser pássaro para que
você gostasse de mim, mas que não passava de uma árvore enraizada.
Agora
entendo porquê você gosta de analisar o vôo dos pássaros, e sua liberdade. E
porquê hoje eu odeio os pássaros. Você é um pássaro e você foi para longe de
mim. Você e sua liberdade e suas asas. Nada por aqui.
Seu
vôo longo me deixou sem respostas por três semanas. Suas asas ao vento e eu
tentando a todo custo arrancar minhas raízes. Mas as raízes são parte de mim e
dói. Eu acho que você não sabe o que é dor.
Eu
só queria um veredicto. Eu só queria um atestado. Eu só queria saber que seu vôo
era alto demais para que uma árvore como eu, com todos os meus galhos e folhas
e peso extra pudesse decolar junto. Você, tão leve. Você, tão alto.
Eu
esperava ouvir o veredicto enquanto estivesse na minha cama, na minha casa,
pronta para chorar toda a água do meu corpo para fora e, quem sabe, pesar
menos. Pronta para que o nó de gravata do meu coração se apertasse e quase me
enforcasse, e que eu tivesse tempo de sentir a falta de ar. Eu queria que a notícia chegasse de de madrugada, para que eu tivesse a noite toda para chorar sua morte.
Mas
não foi.
Era
sexta a feira a noite e eu estava no lugar mais barulhento da cidade. Era um
grande dia, e eu precisava sorrir para todos. Dentre abraços falsos e beijos
falsos e sorrisos falsos e trabalho falso e gente falsa a única verdade que
existe dentro de mim queria explodir quando vi seu nome na tela do meu celular.
Você tinha pousado. Ou não.
No
momento que vi teu pouso o barulho dos tambores era insuportável. Aquela alegria
paga era insuportável demais para mim. Eu não podia ver sua resposta porque
tinha que dar atenção às pessoas que, assim como eu, não queriam estar ali. Não
é possível que alguém queria estar ali.
O
meu coração transbordava e buscava calmaria para contrastar, mas só o que
encontrava era gritos e tambores e risos e falsidade. Eu queria chorar. Mas eu
tinha que rir. Eu queria gritar, mas ali quem fazia barulho não era eu.
Você
me disse o que todos os homens me dizem e que eu tenho certeza que não é
verdade. Eu sou uma pessoa incrivelmente incrível, mas sempre para o próximo.
Ninguém quer me machucar, mas todos me machucam. Sorte de quem me ganhar. Mas sempre
da próxima vez.
Sua
liberdade é grande e seu vôo é alto. Eu vi o que você me disse mas eu não podia
explodir. O nó na garganta estava quase me sufocando mas eu tinha que escrever
sobre política. Eu nunca segurei a angústia por tanto tempo dentro de mim.
Quando
enfim pude chorar, quase a lágrima não veio. Você era bom demais para ser
verdade. O meu amor ia ficar aqui na minha raiz, enquanto você voava pelo seu
céu imenso.
Decidi
então seguir os conselhos de Mario Quintana e deixar em paz os passarinhos. Eu não
tenho o direito de atrapalhar teu vôo.