A menina fica só ali, em pé naquele monte de areia. Ela odeia ficar em pé, ela nem gosta tanto de areia. Mas ela fica ali observando as outras crianças brincarem no parquinho. Todos se divertindo no balanço, no gira-gira, na gangorra. Todo mundo correndo feliz. Caindo, ralando o joelho, levantando, caindo de novo.
Ela tem uma fita de seda vermelha amarrada em sua cintura, e a outra ponta da fita está amarrada na grade do parquinho. É de cetim e preta, mas de tanto ela repetir que era seda vermelha, hoje ela acredita nisso.
Ela está presa por essa fita, e não pode ir brincar com os outros. Mas sempre passa um e fala:
"Ei, menina, porque você não desfaz esse nó? Suas mãos estão livres, é só desfazer aí, ó!".
Ela acha o conselho tolo e pensa: "mas que bobo, como que eu posso desfazer um nó com as mãos?".
E ela continua ali em pé. Ela faz, às vezes, maravilhosos castelos de areia. De vez em quando ela escreve com gravetos palavras lindas que o vento apaga.
Quase todo dia vem alguém falar com ela. Conversar, querendo que ela fique feliz. Mas ela se acha muito feliz ali, naquele monte de areia. "Você acha que aqui é o melhor lugar do parquinho? Você ainda não viu nada!".
Ela vê todas aquelas crianças correndo e brincando, mas acha que já faz tanto tempo que está ali, amarrada pela fita de seda-que-é-cetim, em cima do monte de areia, que nunca vai saber se equilibrar sem uma fita a puxando pra trás.
Vez ou outra ela olha pro lado e vê outras menininhas amarradas com a fita de cetim preta à mesma grade. Mas quando olha novamente, elas já desfizeram o nó com as mãos e estão na gangorra, no balanço, no gira-gira.
"Só eu que fico amarrada sempre, devo ser muito, muito especial!" - Ela pensa.
Depois pensa de novo: "Mas poxa, se eu sou tão especial, porque é que não estou gargalhando como as outras crianças do gira-gira, gangorra e balanço?". Aí ela pensa em desfazer o nó com as mãos. Mas como é que faz isso? Como é que se desfaz um nó, se nunca antes ela desfez um?
"Você também nunca tinha feito um castelo de areia antes!", diz um que passa.
"Ei, desata esse nó aqui pra mim!", ela pede pra outro.
Só que ela precisa entender que não dá. Que ela tem que saber que aquele laço é de cetim e não de seda. Que é preto e não vermelho. Que ir pra gangorra, balanço e gira-gira é muito melhor do que ficar ali em pé. Se alguém desatar o nó ela vai cair, e só vai levantar quando estiver amarrada de novo.
Porque foi ela que fez aquele nó. E só ela sabe com desfazê-lo. Ainda que não saiba.